Por muito tempo, a ideia predominante era que, depois da menopausa, o ovário simplesmente "desligava". A produção dos principais hormônios ovarianos diminui, os ciclos menstruais terminam e a função reprodutiva chega ao fim. Mas será que isso significa que o ovário deixa de ter atividade?
Um estudo publicado em 2026 na revista Molecular Human Reproduction traz uma perspectiva interessante: talvez o ovário continue biologicamente ativo mesmo depois de perder sua função reprodutiva.
O que os pesquisadores descobriram?
Pesquisadores estudaram ovários de camundongos em diferentes fases da vida: jovens, em idade reprodutiva, animais com envelhecimento reprodutivo e animais já na fase pós-reprodutiva. Eles observaram que, com o envelhecimento, o ovário passa por mudanças importantes.
Os folículos — estruturas que contêm os óvulos — praticamente desaparecem. Ao mesmo tempo, o tecido ovariano sofre uma remodelação, com aumento de colágeno e sinais de fibrose. Mas a mudança mais curiosa foi observada no comportamento molecular do órgão.
À medida que o ovário envelhece, sua atividade genética deixa de estar predominantemente relacionada à reprodução e passa a apresentar características associadas ao sistema imunológico e à inflamação. Os pesquisadores encontraram maior presença de células como linfócitos T, macrófagos e células gigantes multinucleadas, além de alterações na expressão de genes relacionados à apresentação de antígenos, ativação de leucócitos e outras funções imunológicas.
O ovário vira um órgão do sistema imunológico?
Não exatamente — e esse é um ponto importante. Quando os pesquisadores dizem que o ovário adquire um perfil "immune-like", ou semelhante ao imunológico, eles não estão afirmando que ele literalmente se transforma em um órgão do sistema imune, como o baço ou os linfonodos.
A ideia é que, depois da perda da função reprodutiva, o ambiente do ovário passa a apresentar características celulares e moleculares semelhantes às encontradas em processos imunológicos e inflamatórios. É uma mudança de identidade funcional bastante interessante.
E por que isso importa?
Porque pode mudar a maneira como enxergamos o envelhecimento feminino. Se o ovário pós-reprodutivo continua produzindo sinais e interagindo com outras células, talvez ele não seja apenas uma estrutura que perdeu sua função reprodutiva. Os autores levantam a possibilidade de que o ovário envelhecido produza mediadores inflamatórios capazes de atuar também fora dele, influenciando outros tecidos do organismo.
Mas aqui é importante separar descoberta de hipótese. O estudo não prova que o ovário seja responsável pelo envelhecimento do corpo, nem que ele cause as doenças que aparecem com maior frequência depois da menopausa. O que ele mostra é que existe uma atividade biológica no ovário pós-reprodutivo que merece ser estudada com muito mais atenção.
O ovário realmente fica "inativo" depois da menopausa?
Talvez não. Além das descobertas feitas nos camundongos, os pesquisadores destacam evidências anteriores de que ovários humanos após a menopausa ainda podem produzir pequenas quantidades de hormônios, principalmente testosterona e outros andrógenos, além de quantidades menores de estrogênios.
Ou seja: perder a capacidade de ovular não significa necessariamente que todas as atividades do ovário desapareçam. O órgão muda. E essa mudança pode ser muito mais complexa do que simplesmente "parar de funcionar".
Uma nova pergunta sobre a menopausa
A grande contribuição desse estudo talvez esteja justamente em mudar a pergunta. Em vez de pensar apenas "o que acontece quando o ovário para de produzir hormônios?", podemos começar a perguntar: "o que o ovário passa a fazer depois que sua função reprodutiva termina?"
Essa diferença parece pequena, mas pode abrir uma nova área de investigação sobre menopausa, envelhecimento e saúde feminina. Os pesquisadores sugerem que entender esse ambiente inflamatório do ovário pós-reprodutivo pode, no futuro, ajudar a investigar novas estratégias para preservar a saúde ao longo do envelhecimento — inclusive abordagens que não dependam necessariamente da reposição hormonal. Mas isso ainda é uma possibilidade para pesquisas futuras.
O que ainda precisamos descobrir?
O estudo foi realizado em camundongos, e não em mulheres — por isso, não podemos simplesmente transferir seus resultados para o organismo humano. Além disso, os próprios pesquisadores reconhecem limitações importantes: como foi utilizada uma análise de expressão gênica em tecido ovariano como um todo, ainda não é possível determinar com precisão quais células são responsáveis por todas essas mudanças.
Novos estudos, utilizando técnicas como análise de célula única e rastreamento da origem celular, poderão ajudar a responder essas perguntas — e também entender se essas alterações observadas no ovário realmente influenciam outros órgãos e, principalmente, se isso tem alguma consequência relevante para a saúde das mulheres.
Talvez o ovário não seja apenas sobre reprodução
Durante muito tempo, o ovário foi enxergado principalmente pela sua função reprodutiva: produzir óvulos e hormônios relacionados à reprodução. Mas o envelhecimento mostra que a história pode ser mais complexa. Depois da vida reprodutiva, o ovário muda profundamente — mas não necessariamente se torna biologicamente irrelevante. Ele pode continuar sendo um tecido ativo, com células, sinais moleculares e interações que ainda estamos começando a compreender.
"Menopausa não é o fim. É uma mudança de ciclo — e a ciência ainda está descobrindo tudo o que acontece dentro dele."
Referência
Converse A, Dipali SS, Schowe IP, et al. The post-reproductive ovary shifts from a reproductive to an immune-like organ. Molecular Human Reproduction. 2026;32(2):gaag038. DOI: 10.1093/molehr/gaag038.
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